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Os Estaleiros da Setenave

Os Estaleiros da Setenave

Verificado

Lisnave/Setnave shipyards on Mitrena peninsula — aerial view

📷 Crédito da imagem

Foto: Bjoertvedt / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

Na península da Mitrena, nas águas do estuário do Sado, encontram-se docas secas que foram outrora símbolo de esperança para toda uma geração. Os estaleiros da Setenave — a maior empresa industrial da história de Setúbal — percorreram um caminho desde um estaleiro dos últimos anos da ditadura até um gigante nacionalizado da era revolucionária e, finalmente, até um declínio silencioso nos anos da privatização. A história da Setenave é a história do próprio Portugal após o 25 de Abril: sonhos radicais, realidades duras e o preço pago pelos trabalhadores.

Fundação e Construção

O Último Projeto do Estado Novo

Os Estaleiros Navais de Setúbal, SARL (Setnave) foram constituídos a 27 de maio de 1971 — nos últimos anos do Estado Novo, quando o regime de Caetano procurava modernizar a economia portuguesa. Os estaleiros localizavam-se na península da Mitrena, na margem sul do estuário do Sado — um local estratégico com acesso a águas profundas, ideal para a construção naval.

A construção dos estaleiros integrava-se num programa de industrialização em grande escala em Setúbal durante as décadas de 1960–1970, que incluía também fábricas de automóveis da Ford e da British Leyland. Esta nova vaga industrial transformou a cidade, atraindo milhares de trabalhadores e reforçando o seu carácter proletário.

Inauguração em Dias Revolucionários

A cronologia da Setenave entrelaça-se com a cronologia da Revolução dos Cravos:

  • 27 de maio de 1971 — constituição legal da empresa
  • 25 de abril de 1974 — a Revolução dos Cravos; os estaleiros encontram-se ainda em construção
  • 27 de maio de 1974 — a primeira comissão de trabalhadores (Comissão de Trabalhadores da Setenave, CTS) é eleita, exatamente três anos após a fundação da empresa
  • 6 de agosto de 1974 — inauguração oficial dos estaleiros, já no âmbito do processo revolucionário

Deste modo, a Setenave — uma empresa concebida sob a ditadura — nasceu e começou a operar num Portugal livre.

O Período Revolucionário (1974–1975)

A Comissão de Trabalhadores

A Comissão de Trabalhadores da Setenave (CTS) — eleita a 27 de maio de 1974 — tornou-se um dos mais radicais órgãos de autogestão operária do Portugal revolucionário.

A primeira comissão manteve posições moderadas, mas a segunda e a terceira comissões adotaram uma orientação marcadamente anticapitalista. Defendiam:

  • Controlo operário total sobre a empresa
  • Nacionalização de toda a indústria de construção naval
  • Garantias sociais para os trabalhadores — habitação, saúde, educação
  • Gestão democrática — todas as decisões fundamentais tomadas em assembleia geral de trabalhadores

O Primeiro Navio

A 16 de junho de 1975, o primeiro navio foi lançado à água nas carreiras da Setenave — o “Montemuro”. Este acontecimento tornou-se um símbolo de que os trabalhadores eram capazes não apenas de lutar pelos seus direitos, mas também de construir navios. O lançamento do “Montemuro” ocorreu no auge do processo revolucionário (PREC — Processo Revolucionário Em Curso), quando o futuro de Portugal era absolutamente incerto.

Nacionalização

A 1 de setembro de 1975, o governo de Vasco Gonçalves nacionalizou a Setenave pelo Decreto-Lei 478/75. A nacionalização integrava-se numa vaga massiva de socialização da propriedade durante o “verão quente” de 1975, quando o processo revolucionário atingiu o seu zénite.

Para os trabalhadores da Setenave, a nacionalização representou uma vitória: a empresa passou para a propriedade do Estado e a comissão de trabalhadores ganhou influência real sobre a gestão. Para os críticos, foi o início de problemas económicos que acabariam por conduzir ao declínio da empresa.

Apogeu e Crise

Pico de Emprego

O número de trabalhadores da Setenave cresceu rapidamente:

AnoTrabalhadoresNota
1971Constituição da empresa
19742 414Ano da inauguração
19796 253Pico de emprego
1987~4 200Início dos despedimentos em massa
1988~2 900Declínio acelerado
1998~700Antes da absorção pela Lisnave

O pico de 6 253 trabalhadores foi atingido em 1979 — após a estabilização do processo revolucionário. A Setenave tornou-se o maior empregador da região e a vida de milhares de famílias setubalenses dependia dos estaleiros.

O Início do Declínio

O declínio da Setenave foi determinado por diversos fatores:

  • Crise mundial da construção naval — a partir do final da década de 1970, a procura de novos navios caiu drasticamente devido à crise petrolífera e ao excedente de tonelagem mundial
  • Concorrência dos estaleiros asiáticos (Coreia do Sul, Japão) com custos radicalmente inferiores
  • Problemas de gestão — os conflitos entre a comissão de trabalhadores, a administração e o Estado dificultaram a tomada de decisões estratégicas
  • Atraso tecnológico — o investimento em modernização foi insuficiente
  • Instabilidade política — as frequentes mudanças de governo em Portugal impediram o desenvolvimento de uma política industrial de longo prazo

O Custo Humano

Os números dos despedimentos ao longo de dez anos desenham um quadro de catástrofe social:

  • 1980–1987 — saíram aproximadamente 2 000 trabalhadores
  • 1988 — mais 1 300 despedimentos num único ano
  • Em 1998 — restavam apenas 700 pessoas nos estaleiros, de um universo que chegara a ultrapassar os seis mil

Cada número representa uma família que perdeu a sua fonte de rendimento. Para a Setúbal operária, onde a Setenave era o principal empregador, os despedimentos em massa significaram não apenas desemprego, mas a destruição de todo um modo de vida.

Privatização e Fim

De Setenave a Lisnave

O processo de privatização estendeu-se ao longo de uma década:

  • 1989 — concessão de gestão transferida para a Solisnor
  • 1997 — assinatura de protocolo com o Grupo Mello (proprietário da Lisnave) para reestruturação
  • 2000 — a Setenave é definitivamente absorvida pela Lisnave, deixando de existir como empresa independente

A privatização concluiu um processo que começara com o sonho da autogestão operária e terminou com a absorção empresarial. Para muitos veteranos da Setenave, tratou-se de uma traição aos ideais da Revolução.

A Lisnave Hoje

Atualmente, a Lisnave continua a operar na península da Mitrena, mas a escala da atividade é incomparável com a era da Setenave:

  • Território: 1 500 000 m²
  • Infraestruturas: 6 docas secas, 9 cais de reparação
  • Especialização: exclusivamente reparação naval — a construção de novos navios cessou
  • Emprego: significativamente inferior aos 6 253 trabalhadores do período de apogeu

A Lisnave continua a ser uma empresa importante para a economia de Setúbal, mas já não define a vida da cidade como a Setenave o fazia nas décadas de 1970–1980.

Monumento e Memória

O Monumento ao 25 de Abril

Um dos símbolos mais significativos do legado operário da Setenave é o Monumento ao 25 de Abril (Monumento ao 25 de Abril) em Setúbal. Este monumento foi criado pelos próprios trabalhadores dos estaleiros: aproximadamente 3 000 horas de trabalho voluntário foram investidas na sua construção.

O monumento não é apenas uma homenagem à Revolução dos Cravos, mas também um testemunho do espírito de coletivismo e solidariedade que marcou a vida na Setenave nos seus melhores anos. Os trabalhadores que construíam navios construíram também um monumento à sua liberdade — com as suas próprias mãos, no seu próprio tempo.

Estudo Académico

A história do movimento operário na Setenave foi estudada na dissertação de Jorge Fontes — “História do movimento operário na Setenave (1974–1989)”, defendida na Universidade de Lisboa. Esta investigação documenta não apenas factos, mas também as vozes dos próprios trabalhadores — as suas esperanças, desilusões e avaliações daquilo que viveram.

A Setenave no Contexto de Setúbal

A Terceira Vaga de Industrialização

A Setenave representou a terceira vaga de industrialização de Setúbal:

  1. Séculos XIX–início do XX — a indústria conserveira: sardinha, operárias, 400 fábricas
  2. Década de 1960 — fábricas de automóveis (Ford, British Leyland)
  3. Décadas de 1970–1990 — Setenave: construção naval, 6 253 trabalhadores, nacionalização

Cada vaga moldou a classe operária de Setúbal, reforçou a sua tradição política e determinou o destino da cidade. E cada vaga terminou em crise e desindustrialização — um padrão que se tornou parte da história moderna de Setúbal.

Datas-chave

DataAcontecimento
27 de maio de 1971Constituição dos Estaleiros Navais de Setúbal (Setnave)
25 de abril de 1974A Revolução dos Cravos
27 de maio de 1974Eleição da primeira comissão de trabalhadores (CTS)
6 de agosto de 1974Inauguração oficial dos estaleiros
16 de junho de 1975Lançamento do primeiro navio “Montemuro”
1 de setembro de 1975Nacionalização (Decreto-Lei 478/75)
1979Pico de emprego: 6 253 trabalhadores
1989Concessão à Solisnor
1997Protocolo com o Grupo Mello
2000Absorção pela Lisnave

Ver também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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