Sardinhas: Culto e Cozinha
A sardinha (Sardina pilchardus) é o peixe que moldou a história económica de Setúbal e se tornou um dos símbolos de Portugal no seu conjunto. Setúbal foi o maior centro de pesca da sardinha e da indústria conserveira do país, e a sardinha assada na brasa continua a ser um prato ritual sem o qual nenhum arraial de verão português é concebível.

História
Raízes Antigas
A captura e o processamento de sardinhas na região de Setúbal têm origens ancestrais. Na margem oposta do estuário do Sado, em Cetóbriga, os arqueólogos descobriram vestígios de fábricas romanas que produziam garum – um molho de peixe fermentado exportado para todo o Império Romano. A sardinha era um dos principais ingredientes do garum, situando a pesca da sardinha no estuário do Sado numa história que abrange dois milénios.
O Período Medieval
Durante a Idade Média, as sardinhas eram salgadas e vendidas como uma importante fonte de proteína para a população portuguesa. A salga de peixe manteve-se como um setor-chave da economia de Setúbal, estreitamente ligado ao comércio do sal – outro pilar da riqueza da cidade.
A Revolução Conserveira
O verdadeiro ponto de viragem ocorreu no século XIX com o desenvolvimento da tecnologia de conservação. Em 1853, a firma Ramirez – a mais antiga empresa conserveira em atividade no mundo – começou a produzir sardinhas em lata. Fundada por Sebastião Ramirez em Vila Real de Santo António, a empresa expandiu-se posteriormente, abrindo fábricas em Setúbal, no Algarve e noutras cidades.
Datas-chave na história da indústria conserveira de Setúbal:
- 1854 – primeira fábrica de conservas em Setúbal (Manuel José Neto e Feliciano António da Rocha)
- 1862 – adoção da pasteurização, abrindo caminho à produção em massa
- Após 1880 – chegada de industriais franceses com tecnologia a vapor; crescimento acelerado do número de fábricas
- 1897 – 26 fábricas na cidade
- Anos 1910 – 85 fábricas; Setúbal torna-se o maior centro conserveiro de Portugal
A Idade de Ouro das Conservas de Peixe
Na primeira metade do século XX, as conservas de sardinha portuguesas tornaram-se um importante produto de exportação. A Primeira Guerra Mundial impulsionou a procura: os exércitos necessitavam de provisões de longa duração, e as sardinhas em azeite eram ideais para a ração das trincheiras. Por esta altura, cerca de 10% da população de Setúbal estava empregada na indústria conserveira.
As latas dessa época tornaram-se objetos de coleção: os fabricantes encomendavam rótulos artisticamente desenhados, e cada fábrica procurava distinguir-se pela embalagem. Hoje, as latas de sardinha vintage são objetos muito procurados no mercado de antiguidades.
Declínio e Crise
A partir de meados do século XX, a pesca da sardinha e a indústria conserveira de Setúbal entraram numa fase de declínio:
- Depleção dos stocks – em 1984, a biomassa da sardinha ibérica era estimada em cerca de 1,3 milhões de toneladas, mas em 2015 tinha caído para um décimo desse valor
- Deslocalização da produção para norte, para a zona de Matosinhos, perto do Porto
- Instabilidade social após a Revolução dos Cravos de 1974
- As fábricas foram encerrando uma após outra; hoje, apenas as chaminés de tijolo das antigas unidades industriais servem de lembrete do passado fabril
Restrições Atuais
A União Europeia impôs quotas rigorosas de captura de sardinha no âmbito da Política Comum das Pescas. Em 2019, o governo português fixou a captura anual em aproximadamente 10 000 toneladas (contra 14 600 toneladas em 2018), desencadeando protestos das comunidades piscatórias. Sandra Lázaro, pescadora de Setúbal, declarou à imprensa que “viver da pesca já não é possível.”
No final de 2019, surgiram os primeiros sinais de recuperação dos stocks, mas a situação permanece frágil.
Descrição
Espécie e Características
A sardinha europeia (Sardina pilchardus) é um pequeno peixe pelágico da família dos clupeídeos. Características principais:
- Comprimento: 15–25 cm
- Época: mais gorda e saborosa de junho a outubro (os meses de verão)
- Habitat: migra ao longo da costa atlântica da Península Ibérica
- Nutrição: rica em ácidos gordos ómega-3, cálcio e vitamina D
Métodos de Preparação
Sardinhas Assadas – sardinhas grelhadas na brasa: O mais importante e venerado método de preparação. As sardinhas frescas são polvilhadas com sal grosso marinho e grelhadas sobre brasas até a pele ficar estaladiça. São servidas sobre uma fatia de pão que absorve a gordura e os sucos, acompanhadas de pimentos assados e azeite. Uma sardinha bem grelhada deve ser rechonchuda e oleosa, com a pele crocante e a carne tenra, a desfazer-se na boca.
Sardinhas em conserva:
- Em azeite – a variedade clássica
- Em molho de tomate
- Em marinada (escabeche)
- Fumadas
Outros métodos:
- Sardinhas de Escabeche – marinadas em vinagre com cebola, alho e louro
- Paté de Sardinha – paté de sardinha
- Sardinhas no forno – com batatas e legumes
O Ritual da “Sardinha Assada”
Grelhar sardinhas na brasa não é apenas um processo culinário, mas um ritual social. É sempre um acontecimento coletivo: a grelha é montada ao ar livre, o fumo enche o bairro, os vizinhos reúnem-se à volta e o vinho corre generosamente. As sardinhas comem-se com as mãos, a carne é retirada das espinhas enquanto o peixe é seguro pela cauda sobre uma fatia de pão.
Significado Cultural
Sardinhas e Santos Populares

O ponto alto do culto da sardinha são os Santos Populares, o ciclo festivo de junho:
- Santo António – 13 de junho, a principal festa de Lisboa
- São João – 24 de junho, a principal festa do Porto
- São Pedro – 29 de junho
Nestes dias, as ruas de Portugal – e o distrito de Setúbal não é exceção – transformam-se em espaços de assadoria ao ar livre: as churrasqueiras são montadas nos passeios e o aroma das sardinhas grelhadas preenche bairros inteiros. A sardinha é o prato obrigatório da festa de Santo António, sem o qual a celebração seria impensável.
Um Símbolo de Identidade Nacional
Para Portugal, a sardinha é muito mais do que um simples peixe. É um símbolo da humildade e da engenhosidade de um povo que soube transformar o mais simples dos produtos na base de uma economia e de uma cultura. Em Setúbal, este simbolismo é particularmente intenso: uma cidade que cresceu sobre a pesca da sardinha e a indústria conserveira permanece associada a este peixe até aos dias de hoje.
O Renascimento das Conservas
Nos últimos anos, as conservas portuguesas têm vivido um verdadeiro renascimento. As lojas de conservas (conserveiras) tornaram-se destinos comerciais na moda em Lisboa e no Porto. As latas de sardinha com design de autor são um souvenir popular. Marcas históricas estão a ser revitalizadas e novos produtores apostam na qualidade e no design. Esta tendência chegou também a Setúbal, servindo de lembrete do seu património conserveiro.
Onde Provar
Em Setúbal
- Mercado do Livramento – sardinhas frescas vindas diretamente dos barcos todas as manhãs; aqui é possível escolher o peixe e pedir que o preparem num restaurante próximo
- Restaurantes à beira-rio (Avenida Luísa Todi) – praticamente todos oferecem sardinhas grelhadas na época
- Restaurantes de pescadores na zona portuária
- Festa de Santo António (12–13 de junho) – churrascos de rua por toda a cidade
Sazonalidade
A melhor altura para sardinhas grelhadas frescas é de junho a setembro, quando o peixe está mais gordo. Diz o provérbio português: “A sardinha é boa quando a cereja está madura.” As sardinhas em conserva encontram-se disponíveis durante todo o ano.
Curiosidades
Nos anos 1980, Portugal e Espanha capturavam em conjunto aproximadamente 200 000 toneladas de sardinhas por ano. Hoje, as quotas estão limitadas a poucos milhares de toneladas – uma ilustração contundente da escala da sobrepesca.
A firma Ramirez, fundada em 1853 por Sebastião Ramirez em Vila Real de Santo António, é considerada a mais antiga empresa conserveira em atividade no mundo. Continua em funcionamento, embora as suas principais instalações de produção se tenham deslocado de Setúbal há muito tempo.

Historicamente, cerca de 20 000 pessoas em Setúbal estavam envolvidas na pesca da sardinha ou na indústria conserveira – uma proporção significativa da população da cidade.
Crê-se que a palavra “sardinha” derive do nome da ilha da Sardenha, ao largo de cujas costas o peixe era encontrado em quantidades enormes na Antiguidade.
[FOLKLORE] Segundo um relato, a tradição de grelhar sardinhas na festa de Santo António está ligada à lenda do sermão do santo aos peixes em Rimini – quando os hereges se recusaram a ouvi-lo, António dirigiu-se aos peixes e estes, segundo a sua hagiografia, ergueram-se da água e escutaram atentamente. Este episódio foi mais tarde reinterpretado pelo pregador português António Vieira no seu célebre sermão de 1654.
O teor de gordura da sardinha é o principal indicador de qualidade: no auge da época (julho–agosto), o teor de gordura pode atingir 20%, sendo precisamente isso que confere às sardinhas grelhadas na brasa o seu sabor distintivo.
Fontes das imagens
- sardinhas-grelhadas.webp — Sardinhas grelhadas. Autor: Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
- sardinhas-assadas.webp — Sardinhas assadas. Autor: Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
- sardines-on-plate.webp — Sardinhas num prato. Autor: Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
Ver também
- Cultura Piscatória de Setúbal
- A Indústria Conserveira
- Choco Frito
- Cozinha de Marisco de Setúbal
- Festas Religiosas de Setúbal
- Mercado do Livramento
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